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Meu pai, Nelson Gorin, faleceu de câncer de pulmão, no início do ano de 2000, com 59 anos. Ele descobriu que estava com esse tumor, no começo de 1996, quando ao sentir dores na via urinária fez diversos exames, inclusive de raio-x do pulmão, onde apareceu uma imagem que aparentava ser um nódulo de tamanho médio. Ao fazer uma tomografia do pulmão, apareceram não só esse nódulo como vários outros menores nos 2 pulmões. Poucos dias depois fez-se uma cirurgia onde se constatou que todos eles eram malignos, do tipo carcinoma bronquiolo-auveolar, espalhados pelos 2 pulmões e que não havia possibilidade de cura, apenas de postergação do problema através de quimioterapia, o que permitiu uma sobrevida de quase 4 anos.

Talvez sem dimensionar ao certo as conseqüências, meu pai fumou dos 13 anos até os 40, quando pôs três pontes de safena. Acho que, nessa fase, ele parou de fumar temporariamente, mas voltou para o cigarro, escondido da família. Mais tarde, assumiu de novo o fumo, com uma intensidade um pouco menor.

Desde à época em que operou o coração, fiquei muito preocupado em dar uma assistência a ele. Íamos sempre ao hospital, para saber se estava tudo bem. Eram exames muito estressantes e extremamente preocupantes. A cirurgia havia sido bem traumática, e nem podíamos pensar na possibilidade de ele precisar fazer outra.

Mas, olha que coisa, apesar de me preocupar muito com a saúde cardíaca do meu pai, jamais havia pensado o que significaria um câncer de pulmão, mesmo vendo na televisão, na época, algumas campanhas contra o fumo, esclarecendo que as pessoas poderiam ter este câncer por conta do cigarro. Mas aquelas informações entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Eu, pessoalmente, estava cego de preocupação de controlar a saúde cardíaca dele. E câncer, de fato, era uma coisa que nem passava pela minha cabeça.

Porém, depois da cirurgia no pulmão, o oncologista nos deu uma previsão de seis meses de sobrevida para o meu pai. Só que ele acabou vivendo mais quatro anos, e passou por constantes tratamentos de quimioterapia, e algumas cirurgias pontuais: uma para a colocação de um cateter, para facilitar a quimio, e outra para retirada de água do pulmão, que havia se concentrado em determinado momento.

A quimioterapia o deixou muito enfraquecido, bem mais sensível psicologicamente. Mas ele continuou trabalhando, até os seus últimos dias. Eu já trabalhava com ele há muitos anos. Comecei a trabalhar com meu pai, em nosso escritório de auditoria, em 1985. E eu fiz várias tentativas para que ele parasse de fumar. Nós dois éramos muito ligados. Muito mesmo. Então, imaginei que eu pudesse influenciá-lo mais do que outras pessoas. Mas nem sempre tudo acontece da forma e na velocidade com que nós imaginamos.

Numa dessas tentativas, a mais radical de todas, eu mesmo comecei a fumar, deixando claro para o meu pai que eu estava fumando exclusivamente para que ele levasse um choque, e que (para me proteger) ele parasse de fumar, e assim eu poderia protegê-lo também de ter outras complicações cardíacas. Nessa época, eu ainda ignorava completamente a possibilidade de um câncer nas nossas vidas. Eu dizia que só pararia de fumar, quando ele parasse. E estava determinado a cumprir minha promessa.

Entretanto, meu pai ficou muito abalado com essa situação e se sentiu muito agredido por mim. Assim, ele não cedeu, continuou fumando, irritado com o meu comportamento. Por outro lado, eu comecei a me viciar. Ele ficou muito nervoso com a arma que eu usei.

E também acho que o cigarro era uma válvula de escape tão importante que nem o amor enorme que ele tinha pelo filho poderia mudar o rumo daquela história. Na época, eu já tinha dois filhos, e estava com uns 28 anos de idade.

Um ano depois, consegui convencer o meu pai a assinar um termo de compromisso garantindo que pararia de fumar em seis meses, desde que eu também parasse de fumar a partir daquele momento. Assim, eu parei, mas ele não.

O impressionante da história é que, ao constatar que ele não havia mesmo parado, refleti o quanto havia sido aparentemente confortável para mim o uso do cigarro, no que se refere a controlar o meu estresse, e recomecei a fumar, daquela vez por vontade própria. E passei a fumar escondido dele. Acho que meu pai morreu sem saber que eu havia voltado a fumar.

Nesse período, para variar, eu continuava sem me preocupar, nem de longe, com a possibilidade de ter que enfrentar um câncer com meu pai. Apesar de meu avô paterno ter falecido de câncer. Ah, mas ele tinha morrido de câncer de próstata, com 73 anos de idade. Não achava que aquilo poderia ter alguma transferência hereditária. Só parei de fumar quando descobri, chocado, que meu pai estava com câncer de pulmão. Antes disso, passei uns dois anos fumando.

Mas veja só, no dia da cirurgia, um dos médicos que operaram o meu pai tentou me consolar, me dizendo que o pai dele havia morrido do mesmo tipo de câncer, vinte e tantos anos antes. E aquela conversa não saiu da minha cabeça. Eu pensava assim: “Caramba, mais de vinte anos depois de perder o pai de câncer, esse médico ainda está vendo pessoas sofrerem e morrerem desse mesmo mal”.

Dessa forma, nasceu o meu primeiro projeto. Eu queria salvar o meu pai e ajudar a encontrar a cura do câncer, antes de ele morrer. Para isso, contratei uma jornalista, no Brasil, que se encarregou, com a colaboração de diversos profissionais, de preparar uma página inteira para ser publicada na imprensa, pedindo ao grupo do G5, para que eles se voltassem ao investimento comum de recursos, no sentido de encontrar a cura do câncer.

Esse texto publicitário seria impresso numa página inteira, no New York Times, no Le Monde, enfim, no principal jornal de cada país do G5, na data em que eles estivessem reunidos. O texto relataria o caso do meu pai, e apelaria para que eles se juntassem em torno da pesquisa e dos avanços em relação à cura do câncer.

Um dos profissionais que colaboraram nesse projeto foi o publicitário Washington Olivetto. O pai dele havia morrido de câncer há pouco tempo, e ele também resolveu contribuir. Mas, no final das contas, meu pai preferiu não se expor, e então, a idéia não saiu.

Foi assim que nasceu a idéia de fazer um livro sobre o assunto, voltado para o público leigo, que esclarecesse as pessoas sobre a importância de falar sobre o tema e de descobrir o câncer em sua etapa inicial. Afinal, quando ainda é descoberta numa fase embrionária, essa doença quase sempre tem cura, como se pode comprovar pelas estatísticas constantes das tabelas às folhas números 223, 224 e 225. Mais do que tudo, acho que não podemos ficar a mercê das casualidades, das fatalidades da vida. Afinal, se a inteligência humana ainda não foi capaz de descobrir a cura do câncer, então vamos usá-la para fazer tudo o que estiver ao nosso alcance no momento.

Porém, por falta de tempo e por dificuldades operacionais, só comecei a tocar o projeto desse livro, em março de 2005, quando conheci o jornalista Márcio Vassallo. Foi quando, junto comigo, Vassallo trabalhou na concepção editorial do livro. E partiu para entrevistar pessoas que, de alguma forma, conviveram com a realidade do câncer. Dei preferência a entrevistas com nomes conhecidos do público, para chamar ainda mais atenção das pessoas para esse assunto tão complexo, tão difícil, tão delicado, e ainda tão pouco comentado, com a profundidade e a seriedade necessárias.

E, felizmente, ele conseguiu depoimentos humanos, emocionantes, mas sem ser piegas, enfim, são depoimentos realmente importantes dessas pessoas. E nesses depoimentos, constatamos que os casos de cura advêm, em geral, de situações de absoluta sorte, ou quando por medidas preventivas somente pontuais, do tipo mamografia que já é mais popular, e não de corpo inteiro, buscando o melhor uso da medicina atual, para evitar os casos da maioria, que são casos realmente sem solução, quando descobertos tarde demais.

Mais do que testemunhos urgentes e importantes, os depoimentos dessas 40 pessoas, conhecidas ou não do público, são convites para nos cuidarmos, e também para aproveitarmos ao máximo o que a vida tem de melhor: nossos afetos e nossos momentos mais preciosos, sem ressentimentos, sem culpas, sem guardar coisas para dizer, coisas para fazer, coisas para viver.

No final, o livro tenta mostrar um ou mais caminhos das pedras para o leitor evitar essa doença que tanto mata as pessoas no mundo. Esta é a realidade: todo mundo está sujeito a ter um câncer, em qualquer parte do organismo, a qualquer momento. O câncer é um inimigo invisível e sobre o qual as pessoas pouco falam e pouco se informam, por medo de falar, medo de investigar, medo de saber.

De fato, os exames de câncer, geralmente são caros para a maioria das pessoas, e não são cobertos pelos planos de saúde, principalmente quando feitos por quem está aparentemente saudável, sem sintomas específicos. Por outro lado, não é recomendável que se espere qualquer sintoma de câncer, para aí sim investigá-lo e agir. Vamos ver, aqui neste livro, que a maioria dos tipos de câncer só acusa os primeiros sintomas em etapas mais avançadas, cuja cura é pouco viável.

Você também vai ver que, dos centros médicos que se dedicam ao estudo do diagnóstico precoce do câncer (Japão, Coréia e Taiwan), com o uso de todos os equipamentos possíveis, diagnosticam o câncer em até 4,95% de pessoas assintomáticas. Esse percentual é alto, se pensarmos nas famílias que se pouparam da dor de enfrentar essa doença, da dor de perder alguém muito querido.

Mas como é que um médico aqui no Brasil conseguiria convencer os seus pacientes aparentemente saudáveis a enfrentar um gasto financeiro bem elevado, um gasto de tempo de um a dois dias por ano e ainda a um estresse em relação aos resultados e também a uma remota possibilidade de se identificar um sinal falso positivo, que levaria a pessoa a partir até para uma pequena cirurgia para obter uma biópsia mais apurada, e depois descobrir muitas vezes que de fato não tinha nada. Como é que um médico conseguiria tudo isso numa sociedade que não tem a cultura do diagnóstico precoce de câncer em pessoas assintomáticas, como é o caso do Brasil?

Provavelmente a pessoa imaginaria que o médico é um neurótico, ou que havia recebido alguma remuneração por esses exames. E como convencer também os planos de saúde a investir em exames assintomáticos, se eles mal conseguem cobrir os exames em pessoas que já apresentam sintomas? Também como é que o governo daria conta disso?

Além de tudo, as pessoas têm muito medo de descobrir um problema tão grave, no meio de tantos outros problemas que a vida já nos apresenta.

Antes de começar este livro, e ao longo do seu processo de produção, fui dado como neurótico por muitas pessoas. Mas a pergunta que eu sempre me faço é a seguinte: será que as famílias e os amigos queridos das pessoas que morreram de câncer achariam uma maluquice, ou uma paranóia, se submeter a uma série de exames necessários, para salvar os seus pais, seus irmãos, seus maridos, suas mulheres, enfim, para salvar as pessoas que eles amavam e perderam por falta de prevenção?

Outra coisa que me disseram muito foi que este seria um livro elitista, principalmente pelos exames caros que recomendamos aqui. Como se a classe média ou alta devesse ser privada dessas informações, em respeito a quem não vai poder ter acesso a essas tecnologias de exames. Como se não fosse obrigação do Governo proteger a saúde da população, e como se os planos de saúde não pudessem concluir no futuro que a prevenção é mais viável economicamente.

Mas, enfim, depois de pesquisar muito na Internet, identifiquei que existe um oásis da informação, nesse sentido, nas proximidades de Tóquio, onde dois profissionais de altíssimo nível (Seiei Yasuda e Michiru Ide, representado por Hironobu Ochi neste livro), há mais de dez anos, imprimem um volume significativo de exames modernos e completos em pessoas aparentemente saudáveis, num país onde a cultura é muito diferente da nossa, além do NCC (Centro Nacional de Câncer do Japão) que com o aval do governo japonês também endossa e incentiva essa visão.

Esses dois profissionais, que já conseguiram salvar milhares de pessoas com o diagnóstico precoce de câncer, até então haviam se limitado a divulgar os seus conhecimentos em publicações e encontros altamente especializados e científicos, sem se voltar para os leigos, nem para a maioria dos médicos de diversas especialidades, pelo mundo afora.

Enquanto não houver uma vacina eficaz para todos os tipos de câncer, é prioritário para o ser humano a busca da prevenção e do diagnóstico precoce dessa doença.

Fiquei muito feliz de encontrar esses profissionais e de tornar possível trazer para o Brasil essas informações. Para isso, encaminhei especialmente para o Japão a jornalista Vivian Oswald. A Vivian conseguiu, pessoalmente, apurar muitos conhecimentos desses dois homens, e transformou todo esse conhecimento técnico em algo digerível para o leigo.

Esse trabalho da Vivian nos traz informações precisas e contundentes sobre o que há de mais avançado em diagnóstico precoce de câncer, há mais de dez anos, nos centros mais importantes do mundo, nesse sentido.

Por sua vez, os depoimentos das pessoas que enfrentaram o câncer têm a importância vital de quebrar paradigmas. Se essas pessoas se dispuseram a contar, recontar e repensar a sua experiência pessoal, sob vários ângulos diferentes, isso quebra o tabu de que o assunto não deve ser conversado. Porque é exatamente o tabu de se manter esse assunto à parte da sociedade que contribui para que o câncer continue literalmente intocável. Nesse caso, o silêncio é um grande aliado do câncer.

Dessa forma, quanto mais divulgarmos os casos de câncer para o público, mais a opinião pública poderá se conscientizar da existência de todos os exames mais eficazes, mais precisos e mais modernos, capazes de diagnosticar precocemente a maioria dos cânceres.

Cada um dos depoimentos das pessoas que conviveram com a realidade do câncer tem a sua própria característica. Cada um desses depoimentos traz para o leitor várias lições de vida. Não para ensinar ninguém a viver, mas sim para que cada um descubra, ou redescubra, por si só, várias maneiras diferentes de olhar o mundo, olhar as pessoas, olhar para si mesmo, e pensar que não há nada mais precioso do que a vida, e que vale a pena se cuidar, se informar, se prevenir. Nenhum esforço é muito nesse sentido.

Sonho que este livro seja capaz de chegar ao maior número possível de leitores. E que os leitores que possam seguir as nossas orientações aqui descritas não sejam pegos de surpresa e se um dia acusarem algum início da doença possam alcançar a cura na sua plenitude.

Acredito, de coração, que muitas histórias de sofrimento podem ser evitadas. Muitas vezes, fazer exames de rotina, buscar um diagnóstico, saber que um câncer pode fazer parte da sua vida realmente é bem assustador e preocupante. Entretanto, não saber é muito mais.

Por isso, se este livro possibilitar um diagnóstico precoce para você, ou para alguém próximo, com cura absoluta, se possível, escreva para mim: ilangorin@uol.com.br

Afinal, se eu não tive informação para ajudar o meu pai a se salvar, na época, que eu possa saber, e que meu pai saiba, onde quer que ele esteja, que outras pessoas tiveram um final feliz, por conta de uma prevenção e de um diagnóstico precoce. Que de alguma forma a perda do meu pai não tenha sido em vão.

Ilan Gorin