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Raul Cortez. Entrevista feita seis meses antes de seu falecimento.

Quanto mais falarmos sobre o câncer, quanto mais falarmos sobre esse assunto, menos alimento vamos dar para essa doença, menos alimento vamos dar para o nosso medo. Porque eu acho que, quando alimentamos um medo, ele vira pânico.

Por incrível que pareça, acho que o pior dessa doença é o remédio, a quimioterapia. A quimioterapia me atingiu da pior forma possível, causando-me uma depressão terrível. Eu tive que lutar muito contra essa depressão. Tive de enfrentá-la com todas as minhas forças, mas valeu a pena. Terminei a luta como o corredor que conclui uma maratona. Fiquei mais magro, sem energia para falar, realmente muito cansado.

Passei 10 meses nessa batalha, fora o tempo em que eu já estava com a doença e não sabia. Na realidade, acho que a doença apareceu quando estava fazendo a novela Esperança, na Globo. Antes mesmo de iniciar as filmagens na Itália, comecei a sentir um mau humor repentino e inexplicável, uma irritação horrível, dores antes de comer, sensações muito ruins. Joguei esse mau humor e essa agressividade para o personagem, o que foi ótimo. Mas, naquele momento, senti que alguma coisa não andava bem, claro. De todo modo, achei que fosse uma azia, uma gastrite, ou mesmo alguma coisa desse nível, e passei a me tratar como se esse fosse o problema. Então, na mesma época, fiz uma operação de hérnia de hiato para tentar diminuir o que estava sentindo, mas continuei tendo dores muito desagradáveis.

Depois, fui fazer um filme com a Fernanda Montenegro. E no meio da filmagem tive que interromper esse trabalho, porque comecei a ter dores horríveis por conta de uma pancreatite. Fui atendido no Copa D'Or, no Rio. Do Copa D'Or, voei para São Paulo, onde foi constatada a pancreatite. Assim, tirei uns dias de descanso por recomendação médica. Já era um grande sintoma de alerta, né? Naquela ocasião, fiz todos os exames que se possa imaginar, mas nada foi detectado, é incrível isso. Então continuei a trabalhar normalmente e terminei o filme com a Fernanda. Mas as dores prosseguiram e pioraram muito. Cheguei a ponto de gritar de tanta dor. Tive de parar de gritar. No dia em que eu gritei disse para mim mesmo que, se eu precisasse representar um personagem que tivesse câncer, já saberia como seria. Afinal, como atores, nós aproveitamos todas as experiências da vida para o nosso trabalho. Só que, no fundo, eu não achava que tinha câncer, de jeito nenhum.

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