Walter Avancini. Diretor de TV por sua filha Andréa Avancini, atriz.
O meu pai não contou para ninguém que estava com câncer. Nós da família só ficamos sabendo cinco anos depois do diagnóstico. Durante esse tempo, quando eu soube que ele estava indo ao médico com freqüência, meu pai afirmava que estava com problemas na coluna e que por isso precisava andar com uma cinta. Na realidade, ele tinha câncer de próstata.
Acho que ele sempre foi muito auto-suficiente e reservado. Não gostava de preocupar as pessoas com as suas dores e seus problemas.
Então nós só ficamos sabendo do câncer quando o meu pai já estava numa fase muito pesada da doença, um ano antes de morrer. Nessa fase, ele já tinha operado, feito tratamentos e estava muito fragilizado. E na verdade ele só contou porque não havia mais como esconder de ninguém, de tão debilitado que estava.
Durante os cinco anos em que ficou doente, todos suspeitavam, no fundo, que ele estivesse com alguma doença grave. Sua pele estava muito amarelada, ele emagreceu demais, apresentando vários sintomas visíveis de que realmente estava doente. Mas nem eu nem meus irmãos tocávamos no assunto, sabíamos que era algo muito particular para ele, e era como se estivéssemos invadindo sua privacidade, que ele queria manter. Isso ficava bem claro para todos nós. Dessa forma, quando perguntávamos por que ele estava assim, o meu pai desconversava, dizia que não era nada, o que reforçava a idéia de que escondia algo mais grave. Afinal, se não estivesse mesmo com nada, ele teria esclarecido a pele amarelada, aquele emagrecimento tão intenso, a dificuldade para caminhar. Nesse caso, acho que ele diria: "Olha, estou com isto e aquilo, e ponto!" Ele nunca foi de dar muita satisfação a ninguém.
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